segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Ecoturismo sem compromisso social

Ecoturismo sem compromisso social

Dissertação de mestrado analisa política oficial de turismo em área de proteção ambiental
Walter Pinto

Definido como um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e promove o bem-estar das populações envolvidas, o ecoturismo que emerge das políticas oficiais no Estado do Pará ainda está longe do proposto, principalmente em relação ao benefício social.
Esta é uma das principais conclusões do estudo realizado pelo professor Paulo Moreira Pinto, do departamento de Turismo da UFPA. Com o título "Unidade de Conservação na Amazônia - o Ecoturismo no Parque Estadual da Serra dos Martírios/Andorinhas, Pará", o estudo, orientado pela professora Lígia Simonian, será apresentado como dissertação no curso de mestrado em Serviço Social.
Especialista em ecoturismo pelo Núcleo de Meio Ambiente da UFPA, Paulo Pinto vem se dedicando à pesquisa desse ramo do turismo, tendo produzido, com o professor Raul Ivan Campos, um estudo sobre o Parque Ambiental de Belém. Mais conhecido por Parque do Utinga, essa área de proteção sofre forte pressão populacional, com graves prejuízos aos mananciais que abastecem a cidade.

A partir de 1997, Paulo Pinto concentrou seu interesse sobre uma das áreas de maior potencial turístico do Pará, a Serra das Andorinhas, uma faixa de terra no município de São Geraldo do Araguaia, ao lado de Xambioá, palco da guerrilha do Araguaia na época do regime militar.

Na década de 1980, pesquisas constataram o alto valor da serra para as Ciências Naturais, sobretudo às áreas da Arqueologia, da Botânica e da Biologia. A serra é um santuário ecológico, com mais de 106 sítios arqueológicos, 42 cavernas, 34 cachoeiras, 30 grutas, oito tipos de florestas diferentes, mais de cinco mil gravuras e pinturas rupestres, além de 80 espécies de orquídeas, 200 tipos de árvores, 51 espécies de plantas medicinais e mais de 500 espécies de animais vertebrados, entre as quais algumas espécies em extinção.


Para evitar que a pressão popular, numa área de muitos conflitos fundiários, causasse algum tipo de dano aos recursos naturais e à biodiversidade do local, o governo do Pará fez o tombamento da serra em 1989. Sete anos depois, criou o Parque Estadual Serra dos Martírios/Andorinhas, e delimitou uma Área de Proteção Ambiental com 60 hectares de entorno. A partir daí, o Parque entrou para a rota do turismo, em seu ramo mais recente, o ecoturismo, que vem se colocando na Amazônia dentro da perspectiva do desenvolvimento sustentável.


Em 1997, Paulo Pinto realizou uma pesquisa documental em Marabá, onde encontrou alguns registros sobre a serra. No ano seguinte, o pesquisador começou a aproximação com a área de estudo, realizando pesquisa documental em São Geraldo do Araguaia. Em 2001, ele manteve os primeiros contatos com os moradores, principalmente os mais antigos e formadores de opinião, entre os quais presidentes de associações e diretores da colônia de pescadores. Atualmente habitam a área cerca de mil pessoas, dispersas em pequenas vilas. Paulo Pinto centrou seu foco sobre a comunidade de Santa Cruz, uma das mais numerosas, com cerca de 200 habitantes. A população da serra sobrevive da agropecuária de subsistência.

Mesmo depois que o Parque Estadual da Serra dos Martírios/Andorinhas se transformou num dos pólos da política de ecoturismo do governo estadual, nada mudou para a população local. Os jovens, por exemplo, sem escolas para todos e sem oportunidades de trabalho, continuam migrando para outras cidades. Apesar do ecoturismo se preocupar com o desenvolvimento sustentável das populações nativas, pregando a inserção delas nas atividades e no desenvolvimento de políticas públicas participativas, os habitantes da Área de Proteção Ambiental, em São Geraldo, continuam esquecidos pelo Poder Público.

Um comentário:

alfredo henríquez disse...

Que boa reflexão... onde posso encontrar a tese deste autor que rererencia ?