sexta-feira, 19 de junho de 2009

QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer não me deem rosas, mas ventos.
Quero as ânsias do mar
quero beber a espuma branca
duma onda a que brar e vogar.
Ah, a rosa dos ventos
a correrem na ponta dos meus dedos
a correrem, a correrem sem parar.
Onda sobre onda infinita como o mar
como o mar inquieto num jeito de nunca mais parar.
Por isso eu quero o mar.
Morrer, ficar quieto, não.
Oh, sentir sempre no peito o tumulto do mundo
da vida e de mim.
E eu e o mundo.
E a vida. Oh mar, o meu coração fica para ti.
Para ter a ilusão
de nunca mais parar.
Alexandre Daskalos

A SOMBRA QUE VEM DEPOIS DO SOL

A sombra que vem depois do sol
É habitada
É uma sombra feliz
A sombra que sucede à luz mui forte
É grávida de cor afirmativa
Estabiliza os caudais
Da imaginação
Pinta seus recantos obscuros
Reconcilia tudo.

Alberto de Lacerda

AS MÃOS

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.
Com mãos se rasga o mar.
Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas de mãos.
E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
Manuel Alegre

HOJE DIA DE SER FELIZ


Existe somente uma idade para a gente ser feliz,
somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-las a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo, nem culpa de sentir prazer.
Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida, a nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor.

Tempo de entusiasmo e coragem em que todo o desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso.

Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração do instante que passa.

foto: Bel Autor.: Desconhecido

POR QUE FAZER UMA TEMPESTADE?


Não precisa fazer uma tempestade em um copo d'agua
Só porque as coisas não deram certo hoje
amanhã é um novo dia
tudo pode começa pelo começo e tudo pode dar certo
é só replanejar ou usar o plano B já que o A não foi tão
bem planejado como você pensou que teria sido
Nada na vida nada acontece por acaso

quinta-feira, 18 de junho de 2009

COM A FACA E O QUEIJO NA MÃO

Tem dia que estamos com a faca e o queijo na mão
e não temos ousadia e fazer o que deve ser feito
estamos sempre esperando o momento
normalmente ele chega e não percebemos, pois
estamos tão abtolados em pequenas coisas que
deixamos apodrecer o queijo cegar a faca.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

CHORAR O LEITE DERRAMADO

As vezes não percebemos as besteiras cometidas por nós
Sempre é muito tarde para voltar atrás
Pois o que passou não há mais como reescrever
O importante é levantar a cabeça e tentar
fazer tudo certo
Pois ficar chorando o leite derramado
é estratégia de fracassado.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

VIDA CABLOCA

Minha ciência é a natureza
Sou caboclo filho da Amazônia
Nos seus rios meu sustento
Em suas terras a minha morada
Eu vou fazer muquiado de jaraqui
De tucunaré de Curimatá
Há pacu, há bodó, há tambaqui
Há farinha d'água e o tucupi
Minha ciência é a natureza
Sou caboclo filho da Amazônia
No luar vou brincar com meu boi
Ao redor da fogueira
Na floresta tem a festa
Pra brincar com a morena faceira

terça-feira, 9 de junho de 2009

EM DEFESA DESTE CHÃO

Quando a terra mãe era nosso alimento
Eles chegaram
Com a cruz e a espada
Eles pecaram
Quando a noite escura formava o nosso teto
Clareava a luz do arcabuz
Tomaram nossas terras
dizimando os nossos índios
Transformando em escravos
Os filhos do sol
A dor e o pavor
Das caravelas assombrosas
Que apontavam para o norte
Não puderam nos eliminar
Não vamos esquecer nossos costumes
Somos de uma ascendência Milenar
Espalham-se as plumas dos Tupinambá
pelo rio Madeira e o rio Guamá
Batalha derradeira contra a opressão
Séculos e séculos de toda a nação
Em defesa desse chão eu vou cantar
Para o mundo inteiro se conscientizar
Preservar é amor
Toda a humanidade
Juntos vamos celebrar
É Caprichoso, é resistência
De consciência milenar
Boi Caprichoso, é resistência
De consciência milenar

Boi Caprichoso
Composição: Ademar Azevedo e Frank Azevedo

Foto: Bel

AMOR ABSOLUTO


Meu amor quanta saudade ficou
vejo a luz que iluminou nossa carma
eu amor absoluta paixão
tenho sentimento afim 
juro não é em vão
Quero eu viver a terna emoção
esse amor seduz o meu coração
a certeza desse amor demais
Vermelho é a cor vivaz
que une o branco à paz
Foi você que me ensinou a ser feliz
delirando sobre as asas da ilusão
Meu louco amor
meu doce amor, inspiração
A razão de não viver mais sem você



Boi Garantido
Composição: Paulinho Dú Sagrado

quarta-feira, 3 de junho de 2009

PALPITE


To com saudade de você debaixo do meu cobertor
De te arrancar suspiros, fazer amor
To com saudade de você
Na varanda em noite quente
E do arrepio frio que dá na gente
Truque do desejo
Guardo na boca o gosto do beijo
Eu sinto a falta de você, me sinto só, e aí, será que você volta
Tudo à minha volta, é triste
E aí, o amor pode acontecer
De novo pra você palpite
To com saudade de você
Do nosso banho de chuva
Do calor na minha pele da língua tua
To com saudade de você censurando o meu vestido
As juras de amor ao pé do ouvido
Truque do desejo
Guardo na boca o gosto do beijo
Eu sinto a falta de você
Adriana Calcanhotto

FALTA


Tem dias em que que acordar não é fazer acordos,
Muito menos sair do sono.
Acordar é abrir portas,
Fechar portos,
Caminhar sem rumo
pois o sentido desmaiou.

Tem dias que me falta a noite,
Me falta fome, me falta você.
E somente o teu cinturão de estrelas,
Minha estrela,
Me mantém vivo
E por isso vivo,
Sem rumo, sem portas,
Procurando pelo teu porto,
Roto,
Ao teu lado.



Marquinho Mota

AMO - TE


No silêncio de mim,
Guardo razões que não sei explicar.
Enigmas do coração,
Que não sei decifrar.
No peito guardado,
Sentimentos que perneiam soltos,
Na ilusão do meu querer.
O coração inocente,
Pulsou o amor!
Sem regras estabelecidas,
Nasceu o amor proibido.
Mas o que fazer?
Se meu coração desobediente ultrapassou a razão,
E ancorou nessa louca paixão?
Agora tudo em mim,
Tem o toque mágico desse amor que entorpece.
Tudo em mim é uma espera constante,
Por esse amor que me domina.
Amor que inspira,
Verso,Poesia,Canção.
Amor latente que pulsa forte dentro de mim.


Socorro Carvalho

sexta-feira, 24 de abril de 2009

CONSTRUÇÃO


Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

Composição:Chico Buarque

terça-feira, 21 de abril de 2009

A HISTÓRIA DE ROSA

No primeiro dia de aula nosso professor se apresentou aos alunos, e nos desafiou a que nos apresentássemos a alguém que não conhecêssemos ainda.


Eu fiquei em pé para olhar ao redor quando uma mão suave tocou meu ombro. Olhei para trás e vi uma pequena senhora, velhinha e enrugada, sorrindo radiante para mim. Um sorriso lindo que iluminava todo o seu ser. Ela disse: “Ei, bonitão. Meu nome é Rosa. Eu tenho oitenta e sete anos de idade. Posso te dar um abraço?” Eu ri, e respondi entusiasticamente: “É claro que pode!”, e ela me deu um gigantesco apertão.

Não resisti e perguntei-lhe: “Por que você está na faculdade em tão tenra e inocente idade?”, e ela respondeu brincalhona: “Estou aqui para encontrar um marido rico, casar, ter um casal de filhos, e então me aposentar e viajar”. “Está brincando”, eu disse.

Eu estava curioso em saber o que a havia motivado a entrar neste desafio com a sua idade, e ela disse: “Eu sempre sonhei em ter um estudo universitário, e agora estou tendo um!”
Após a aula nós caminhamos para o prédio da união dos estudantes, e dividimos um milk shake de chocolate. Nos tornamos amigos instantaneamente. Todos os dias nos próximos três meses nós teríamos aula juntos e falaríamos sem parar.
Eu ficava sempre extasiado ouvindo aquela “máquina do tempo” compartilhar sua experiência e sabedoria comigo. No decurso de um ano, Rosa tornou-se um ícone no campus universitário, e fazia amigos facilmente, onde quer que fosse.
Ela adorava vestir-se bem, e revelava-se na atenção que lhe davam os outros estudantes. Ela estava curtindo a vida!
No fim do semestre nós convidamos Rosa para falar no nosso banquete de futebol. Jamais esquecerei o que ela nos ensinou. Ela foi apresentada e se aproximou do podium. Quando ela começou a ler a sua fala, já preparada, deixou cair três, das cinco folhas no chão.
Frustrada e um pouco embaraçada, ela pegou o microfone e disse simplesmente: “Desculpem-me, eu estou tão nervosa! Eu não conseguirei colocar meus papéis em ordem de novo, então deixem-me apenas falar para vocês sobre aquilo que eu sei”.
Enquanto nós ríamos, ela limpou sua garganta e começou: “Nós não paramos de jogar porque ficamos velhos; nós nos tornamos velhos porque paramos de jogar.
Existem somente quatro segredos para continuarmos jovens, felizes e conseguir o sucesso. Primeiro, você precisa rir e encontrar humor em cada dia. Segundo, você precisa ter um sonho. Quando você perde seus sonhos, você morre. Nós temos tantas pessoas caminhando por aí que estão mortas e nem desconfiam! Terceiro, há uma enorme diferença entre envelhecer e crescer... Se você tem dezenove anos de idade e ficar deitado na cama por um ano inteiro, sem fazer nada de produtivo, você ficará com vinte anos. Se eu tenho oitenta e sete anos e ficar na cama por um ano e não fizer coisa alguma, eu ficarei com oitenta e oito anos. Qualquer um, mais cedo ou mais tarde ficará mais velho. Isso não exige talento nem habilidade, é uma consequência natural da vida. A ideia é crescer através das oportunidades. E por último, não tenha remorsos. Os velhos geralmente não se arrependem por aquilo que fizeram, mas sim por aquelas coisas que deixaram de fazer. As únicas pessoas que tem medo da morte são aquelas que tem remorsos”.

Ela concluiu seu discurso cantando corajosamente “A Rosa”. Ela desafiou a cada um de nós a estudar poesia e vivê-la em nossa vida diária. No fim do ano Rosa terminou o último ano da faculdade que começara há tantos anos.

Uma semana depois da formatura, Rosa morreu tranquilamente em seu sono. Mais de dois mil alunos da faculdade foram ao seu funeral, em tributo à maravilhosa mulher que ensinou, através de seu exemplo, que nunca é tarde demais para ser tudo aquilo que você pode provavelmente ser, se realmente desejar.

Lembre-se: Envelhecer é inevitável, mas crescer é opcional!

terça-feira, 7 de abril de 2009

QUERO TE AMAR ATÉ O POR DO SOL


Quero te amar em cada pôr do sol
Te celebrar em todo amanhecer
Ser fiel a ti
Como o Sol à Lua
A poesia ao poeta
A criança ao brinquedo
Quero te cantar
Te ouvir
Misturar nossos sonhos
Suspirar, sorrir
Dormir e te ter em sonhos
Acordar e te ver ao meu lado
Quero sair nas ruas
E proclamar meu amor
Escrever em muros, outdoors
Quero estar contigo
Ser você
Quero tua essência
Me adoçando
Completando
Quero a certeza que vai durar
Afinal somos um
Inseparáveis
Indissociáveis
Apenas um.
Escrito por Netto Nunes

quinta-feira, 26 de março de 2009

A NATUREZA NOS FEZ FLORES

Nas paragens mais remotas,
Nascem flores de beleza perfeita...
No meio das folhas mortas,
Vê-se como a vida é refeita.
Nada se perde, tudo se transforma,
E a beleza não é inerente ao lugar.
A natureza tem como norma
Não escolher onde a bela flor medrar.
No lodo tem a alvura do lírio...
Na terra resequida do cactus a flor...
Na água a vitoria régia um delírio,
E num coração emperdenido o amor.
A natureza nos fez flores
Umas sem espinhos, belas e perfumadas,
Outras com espinhos que causa dores,
Mas todas lindas e de cores variadas.
Quantas vezes em meio ao infortúnio
Onde tudo é o caos, surje forte e bonito,
Dando vida, trazendo alegria o Jerânio,
Para um coração cansado e aflito.

AMIGA É PRA TODA VIDA


Mais também para ajudar nas horas em que a outra precisa,
Sem que a segunda peça,
Mais sim pelo puro desejo de querer bem uma outra,
Não querer que a outra sofra,
Seja por amor,
por doença ou pelo simples fato de uma depressão,
Amiga tem que ser feito irmã,
Proteger,cuidar, te chama a atenção quando necessario,
brincar e ter compreensão,
Sempre que o outro precisar, lhe dar a mão,
Pois amiga não pode esquecer da outra pelo simples fato de estarem brigadas,
Porque, uma amiga de verdade mesmo que brigue,
Jamais pode querer a desgraça da outra,
Caso isso aconteça se dará ao fato de essa amiga,
Apresentar um caráter individualista e ser interesseiro,
Amiga não tem interesse pelas coisas das suas amigas,
A única coisa que lhe importa e que ele tem de valor é a amizade,
Por isso eu posso dizer com toda certeza...
Que sou sua amiga
e VOCÊ É MINHA AMIGA.

Ad. Bel

quarta-feira, 25 de março de 2009

O VIVER MELHOR OU BEM VIVER?



Na ideologia dominante, todo mundo quer viver melhor e desfrutar de uma melhor qualidade de vida. Comumente associa esta qualidade de vida ao Produto Interno Bruto de cada pais. O PIB representa todas as riquezas materiais que um pais produz. Se este é o critério, então o países melhor colocados são os Estados Unidos, seguidos do Japão, Alemanha, Suecia e outros. Este PIB é uma medida inventada pelo capitalismo para estimular a produção crescente de bens materiais a serem consumidos.
Nos últimos anos, dado o crescimento da pobreza e da urbanização favelizada do mundo e até por um senso de decência, a ONU introduziu a categoria IDH, o “Índice de Desenvolvimento Humano”. Nele se elencam valores intangíveis como saúde, educação, igualdade social, cuidado para com a natureza, equidade de gênero e outros. Enriqueceu o sentido de “qualidade de vida” que era entendido de forma muito materialista: goza de boa qualidade de vida quem mais e melhor consome.
Consoante o IDH a pequena Cuba apresenta-se melhor situada que os EUA, embora com um PIB comparativamente ínfimo.Acima de todos os paises está o Butão, esprimido entre a China e Índia aos pés do Himalaia, muito pobre materialmente mas que estatuiu oficialmente o “Indice de Felicidade Interna Bruta”. Este não é medido por critérios quantitativos mas qualitativos, como boa governança das autoridades, eqüitativa distribuição dos excedentes da agricultura de subsistência, da extração vegetal e da venda de energia para a Índia, boa saúde e educação e especialmente bom nível de cooperação de todos para garantir a paz social.
Nas tradições indígenas de Abya Yala, nome para o nosso Continente indioamericano ao invés de “viver melhor” se fala em “bem viver”. Esta categoria entrou nas constituições da Bolívia e do Equador como o objetivo social a ser perseguido pelo Estado e por toda a sociedade.
O “viver melhor” supõe uma ética do progresso ilimitado e nos incita a uma competição com os outros para criar mais e mais condições para “viver melhor”. Entretanto para que alguns pudessem “viver melhor” milhões e milhões têm e tiveram que “viver mal”. É a contradição capitalista.Contrariamente, o “bem viver” visa a uma ética da suficiência para toda a comunidade e não apenas para o indivíduo. O “bem viver” supõe uma visão holística e integradora do ser humano inserido na grande comunidade terrenal que inclui além do ser humano, o ar, a água, os solos, as montanhas, as árvores e os animais; é estar em profunda comunhão com a Pacha Mama (Terra), com as energias do universo e com Deus.A preocupação central não é acumular. De mais a mais, a Mãe Terra nos fornece tudo que precisamos. Nosso trabalho supre o que ele não nos pode dar ou a ajudamos a produzir o suficiente e decente para todos, também para os animais e as plantas. “Bem viver” é estar em permanente harmonia com o todo, celebrando os ritos sagrados que continuiamente renovam a conexão cósmica e com Deus.
O “bem viver” nos convida a não consumir mais do que o ecossistema pode suportar, a evitar a produção de resíduos que não podemos absorver com segurança e nos incita a reutilizar e reciclar tudo o que tivermos usado. Será um consumo reciclável e frugal. Então não haverá escassez.
Nesta época de busca de novos caminhos para a humanidade a idéia do “bem viver” tem muito a nos ensinar. * Leonardo Boff é teólogo, escritor, professor emérito de ética da UERJ e membro da Comissão da

Por Leonardo Boff*
 Carta da Terra.
(Envolverde/O autor)

terça-feira, 24 de março de 2009

TEXTO DE ABERTURA DO SEMINÁRIO



Não é uma preocupação pessoal o tema desse seminário. Amazônia: Comunidades Tradicionais e Mineradoras são quatro grandes palavras que devem chamar a atenção de todos nós, porque, por um bom tempo elas deverão fazer de nossas vidas. E não somente porque estamos localizados numa região tão rica naturalmente, mas acima de tudo, porque são palavras que se unem a uma outra chamada progresso.
Amazônia: Comunidades Tradicionais, Mineradoras, Progresso, Dinheiro...

Hoje, o mundo reconhece mais do que nunca, a necessidade de se repensar a importância da vida em harmonia com a natureza e de um progresso diferente daquele a que estamos acostumados ver historicamente, no qual quem perde é a humanidade e quem ganha é o capital.

Nesses dias em que são constantes os tsunamis, o aquecimento global, e tantos outros fenômenos desastrosos da natureza, também devem ser constantes as ações como esta, que buscam colocar frente a frente autoridades, empresários, movimento social, acadêmicos, educadores e toda a gente interessada num real progresso, não só para a Amazônia, mas para todas as outras regiões deste planeta, onde o verde ainda é sinônimo de paraíso e esperança.

Longe de ser uma ação puramente emotiva, este evento foi pensado em razão de um fato real, ocorrido no dia 28 de janeiro, na base da Alcoa no município de Juruti. Quando manifestantes pacíficos foram duramente repreendidos pela ação policial. O que poderia ter sido evitado. Mas também não estaremos aqui somente para lamentar o que passou. Ao contrário, pretendemos estabelecer o diálogo e realizar o debate necessário para sairmos com mais conhecimento e consciência do assunto.

Sabemos que isso não vai resolver o problema de ninguém. Mas vai suscitar, quem sabe, outros questionamentos, outras respostas e iniciativas em favor do bem comum para a nossa região. E estas palavras serão apenas palavras de abertura de um seminário que tem uma causa nobre.

Para concluir, vale lembrar um fato muito positivo, e que ninguém podia imaginar há uma década atrás. O primeiro fórum social mundial na Amazônia. Pela primeira vez, autoridades, intelectuais de todo o mundo e nativos da região estiveram frente a frente para discutir um novo mundo possível. A transformação social demora, mas o mundo está em crise. E isso é um bom sinal. Tenham todos e todas um excelente seminário.